sábado, 29 de agosto de 2009

Letra cursiva x Letra bastão.

Mas os alunos não vão começar a escrever com a outra letra? É uma pergunta que costumo ouvir sempre. As pessoas se incomodam pelo fato de meus alunos utilizarem letra script maiúscula, letra bastão, de imprensa, enfim, essa letra que não é a tão sonhada letra “de mãos dadas”.
Conforme afirma cagliari (1999, p. 31): “O processo de alfabetização pode ser diferente do método das cartilhas, procurando equilibrar o processo de ensino com o de aprendizagem, apostando na capacidade de todos os alunos para aprender a ler e escrever no primeiro ano escolar e desejando que essa habilidade se desenvolva nas séries seguintes, até chegar ao amadurecimento esperado pela escola”.
A escola, nos últimos anos, foi bastante surpreendida pelas inovações dos campos da ciência e da tecnologia. Com esses avanços, muitas teorias acerca da aprendizagem e do desenvolvimento cognitivo, da leitura, da escrita e da alfabetização foram sendo complementadas, discutidas e reconstruídas necessitando trazer consigo reformulações dos métodos educacionais.
Penso o seguinte: será que além de todas as dificuldades que os alunos já enfrentam no processo de alfabetização, eles têm a necessidade de aprender a ler e escrever a letra cursiva, cuja sua utilização nos tempos atuais encontra-se quase que exclusivamente na escola? Pois não a encontramos em nenhum outro lugar no contexto social? Porque a maioria dos professores continuam trabalhando com a letra cursiva, exigindo esta aprendizagem, muitas vezes como critério de aprovação?
Considerada uma questão bastante complicada e duvidosa, muitos professores não sabem que tipo de letra utilizar para alfabetizar de forma mais eficaz:, bastão ou cursiva?
Como o objetivo da escola deve ser o de preparar cidadãos críticos capaz de transformar a realidade para melhor, a proposta de alfabetização deve naturalmente adequar-se às exigências da realidade atual. Realidade esta, em que a letra bastão esta presente em todos os momentos da vida de uma criança: em livros, televisão, revista, jornais, embalagens, rótulos, no teclado do computador. Ficando a escola como um dos únicos espaços sociais em que privilegia a escrita com letra cursiva. Muitos educadores dedicam parte do seu tempo treinando o alfabeto manuscrito com seus alunos, apesar de viverem num mundo onde a letra de forma é dominante. Desta forma, percebe-se uma grande perda de tempo e esforço por parte dos alunos e professores que tentam insistentemente a grafia da letra cursiva. Tempo este que poderia e deveria ser melhor aproveitado, com atividades desafiadoras com objetivos reais para o crescimento de seus alunos.
Percebe-se então, a dificuldade com que se defrontam estas crianças, que recém aprendendo a ler e escrever depara-se com obstáculos criados e na maioria das vezes impostos pela própria escola, que na maioria das vezes obrigam seus alunos a utilizar a letra cursiva, sendo em muitos casos um inibidor de avanços e aprendizagens, podendo trazer conseqüências bastante sérias e graves, como, por exemplo, o fracasso escolar.
Segundo ferreiro, (apud nova escola, 1996, p. 11) começar a alfabetização com letra bastão é uma tentativa de respeitar a seqüência do desenvolvimento visual e motor da criança.
No entanto, em vez dos professores despenderem a energia de seus alunos no aprendizado da letra cursiva, poderia utilizá-la para outras atividades mais importantes e necessárias para a vida dos alunos, como por exemplo: leituras, jogos, brincadeiras, músicas, etc. convictas de que as classes de alfabetização são a base para a vida escolar do aluno. Assim, esta deve ser uma etapa encantadora e estimulante para que a criança siga com entusiasmo sua vida escolar com motivação e determinação.
Utilizar a letra bastão não deve ser apenas uma opção para facilitar a vida do professor, que não terá "trabalho " para ensinar a sua caligrafia. O uso da letra bastão está imbuído de uma filosofia que acredito: que devemos começar a ensinar pelo que está mais vivo no mundo da criança e não pelo que nos é cobrado pela sociedade. Temos sempre que pensar no que é melhor para nosso aluno e não para os pais ou coordenador pedagógico. Para isso o professor deve estudar e cercar-se de respostas, pois sem dúvida alguém irá questioná-lo quanto ao uso da letra bastão.
Ressalto também que a forma da letra de cada um é determinada muitas vezes pela genética, os filhos tendem a ter os mesmos traços que os pais ou avós, logo, nada adiantará páginas e páginas de caligrafia se a criança tiver melhor aptidão para escrever com letra bastão. Isto só o tempo dirá.
Devemos sempre pensar em qual é nosso real objetivo: formar leitores ou calígrafos?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS: http://www.psicopedagogia.com.br/opiniao/opiniao.asp?entrID=541
ADRIANA, Vera e Silva. Bastão X Cursiva, os prós e os contras de cada letra na alfabetização. São Paulo: Ed. Abril, n. 99, XI, p. 8-16, dez 1996.
CAGLIARI, Luiz Carlos. Alfabetização sem o ba, be, bi, bo, bu. Pensamento e ação no magistério. São Paulo: Editora Scipione, 1999.
Ministério da Educação e do Desporto. Parâmetros Curriculares Nacionais: Introdução aos Parâmetros curriculares Nacionais. Brasília: MEC/SEF.1997
Revista Nova escola: Entrevista realizada com Emilia Ferreiro: 1996. p. 11

8 comentários:

  1. Cara Renata, abraço com carinho e compartilho de sua postura quanto à letra de mão.
    Vejo-a como um dos paradigmas de nossa educação (ainda tão primitiva), e pretendo fazer meu TCC da Faculdade sobre esse assunto. Se puder me indicar livros sobre esse assunto, ficaria grata, visto que o assunto está tão arraigado na sociedade que muitos não o veem como problema e não existe muito o que estudar sobre isso. Obrigada! Cláudia Marques
    claudia.mslopes@hotmail.com

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  2. A escola ocupa um lugar diferenciado no mundo formal da criança.Justamente pelo fato de conhecerem e terem contato diário com a letra bastão,é que torna-se necessário que ela perceba inúmeras formas de expressão escrita e que não pode simplesmente ser descartada a script ou cursiva.Visto que a criança é capaz de aprender muito mais do que isto,não há qualquer malefício ou esperdício de tempo.Trata-se de mais um aprendizado e habilidade que será inserida no seu cotidiano para melhor decodificação.Lembro que círculos e traçados é o início do grafismo infantil e por isto a criança aparenta facilidade em escrever bastão e não por dificuldade de utilisar a cursiva.Ela o fará naturalmente desde que o professor faça a passagem da script para a cursiva de maneira jocosa.Não haverá qualquer trauma e sim o prazer de identificação e entendimento.

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  3. Gostaria de fazer algumas correções ao meu texto,pois não repassei e ao lê-lo..deparei com alguns erros:desperdício/são o início/utilizar

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  4. Cara Renata!
    Sou professora alfabetizadora há seis anos e discordo que devemos trabalhar apenas com a letra bastão. Ela não é mais correta visto que jornais e revistas, o computador e o próprio livro didático não estão 100% escritos em letra bastão (script maiúscula). Além do mais a coordenação motora deve ser trabalhada desde a Educação Infantil, o que propicia aos educandos maior capacidade de raciocínio lógico.O que vejo são professores que, embora trabalhem a bastão dizendo que a alfabetização é mais fácil, e disso não discordo, não utilizam o tempo restante ensinando os educandos a organizarem suas ideias, materiais e a escrita em seus cadernos, deixando o aluno perdido no tempo e no espaço em prol de uma nova concepção de alfabetizar (por modismo).
    Um grande abraço!

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  5. Renata, adorei o seu texto, sou pedagoga trabalho há dez anos com Educação Especial e já alfabetizei alunos com a letra bastão e garanto que a transição para a letra cursiva se deu de maneira tranquila, segura e satisfatória a partir do momento que os alunos apreenderam o conceito de cada letra isoladamente, respeitando a sua sonoridade e as diferenças e semelhanças de cada uma delas, agora estou nesse processo de construção do saber com a minha filha de 5 anos, que está meio confusa por que a escola dela insiste em trabalhar a letra cursiva sem ter garantido o aprendizado de cada letra isoladamente...Uma pena, não é?Beijo e sucesso para você!

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  6. Não acho que a letra de forma é dominanate!

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  7. Cara Renata, sou mãe de um portador de síndrome de tourette e posso responder com todas as letras necessárias qual a razão das professoras continuarem insistindo na letra cursiva: IGNORÂNCIA, péssima formação acadêmica, muita falta de estudo, total falta de leitura, e uma prepotência absurda!E não me falem em falta de dinheiro para comprar livros, pois as bibliotecas e sebos estão aí para isso. Só quem tem que lidar com uma situação semelhante a minha é que tem ideia real do despreparo das professoras e, o que é pior, as mais antigas são as piores! Essas que deveriam orientar, ajudar as mais novas na profissão, são as mais prepotentes, menos estudiosas e mais ignorantes. Já me deparei com professora de 45 anos de idade (o que eu considero uma idade plenamente produtiva,que deveria ser rica em experiência), que me disse: "eu leciono a 30 anos e sei o que estou fazendo!" Hahaha! Se dependesse de mim, meus filhos iriam para a escola só para brincar, pois até hoje os três (21, 9 e 6 anos) aprenderam muito mais com a família do que na escola, tanto privada como pública. Desculpem-me as excessões, pois elas são raras mas eu sei que existem. E pra não dizer que não sei sobre o que estou falando: sou engenheira mecânica e professora de Matemática, uma área em que as professoras conseguem fazer atrocidades ainda piores do que obrigar a escrever com a letra cursiva... Parabéns pela postura e pelo post!

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  8. Renata, gostei muito de suas colocações sobre a letra bastão e penso que todos os professores, alfabetizadores ou não deveriam lê-lo para que não aconteça absurdos como o que acompanhei essa semana ao ver um aluno que antes só escrevia bastão (durante Alfabetização e Ensino Fundamental) tentar escrever letra cursiva como se estivesse começando seu processo de Alfabetização. Quando o questionei sobre sua mudança no modo de escrever ele me respondeu que o professor do Ensino Médio não aceitou que ele escrevesse com letra bastão por isso estava tentando mudar. Considerei um absurdo pois e a questão genética como fica? Ele sempre escreveu com letra bastão e não se identifica com a cursiva. Penso que há muitos professores despreparados em sala e principalmente e o mais grave pessoas que não sabe respeitar a individualidade de seus alunos ( o mais grave é que o professor escreve um misto de bastão e cursiva). Considero muito pertinente suas colocações e farei com que o texto chegue até ele.

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